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Terça-feira, 03 de Maio de 2022, 16h:39

Brasileiros na Irlanda quintuplicou em seis anos; veja relatos

O número de brasileiros vivendo na Irlanda mais que quintuplicou nos últimos seis anos. Em 2016, eram 13,6 mil pessoas, segundo o censo local. Hoje, de acordo com estimativas elaboradas pela Embaixada do Brasil em Dublin, esse número alcança os 70 mil.

BBC NEWS

O país de pouco mais de 5 milhões de habitantes e 70 mil km² virou um ímã para os estrangeiros graças à facilidade que os recém-chegados têm de encontrar emprego legal e se regularizar, segundo especialistas em imigração consultados pela BBC News Brasil. O mercado de trabalho vive um momento de prosperidade, e há vagas em áreas diversas, para profissionais com ou sem qualificação.

Há ainda uma enorme oferta de cursos de inglês, que atraem centenas de brasileiros todos os meses. De acordo com alguns desses imigrantes, além do custo menor em comparação com outras nações que também oferecem aulas da língua, a Irlanda se destaca por oferecer uma modalidade de visto de estudos que permite trabalhar por meio período, ou 20 horas por semana.

Essa modalidade de visto, chamado de Stamp 2, pode ser tirada diretamente na Irlanda, logo após a chegada, desde que o estrangeiro comprove sua matrícula em um curso com duração mínima de 25 semanas e uma reserva de 3 mil euros (cerca de R$ 16 mil) ao passar pela imigração.

"Parte dos estudantes retornam ao Brasil assim que seu visto expira, mas uma outra parte permanece no país porque encontra boas oportunidades de trabalho dentro da lei", diz César Leite, chefe do setor consular da Embaixada em Dublin.

"A demanda por mão de obra é muito grande, porque os próprios irlandeses estão emigrando muito, e existe uma lacuna a ser suprida", explica o diplomata.

Além disso, a Irlanda tem um dos salários mínimos mais altos da Europa, na frente de países como Portugal e Espanha. Por hora, cada trabalhador recebe no mínimo 10,50 euros, ou cerca de R$ 55 - em comparação, o salário mínimo no Brasil, de R$ 1.212, equivaleria a R$ 5,51 por hora em uma jornada de 40 horas de trabalho por semana, segundo o Ministério da Economia.

O inglês também atrai muitos estrangeiros que já falam o idioma oficial do país e desejam morar na Europa, mas não querem se aventurar com as outras línguas do continente.

Mesmo os brasileiros de família europeia, que têm nacionalidade e passaporte europeu, escolhem a Irlanda como alternativa aos destinos mais tradicionais. Segundo a Embaixada, 25% dos portugueses e italianos que vivem hoje no país são também brasileiros.

A advogada Úrsula Perugini tem uma consultoria especializada em emissão de cidadania italiana com base na Toscana. Mas antes de abrir o negócio morou por quatro anos e meio na Irlanda, de onde vêm boa parte de seus clientes.

"Muitos dos brasileiros que antes tiravam a cidadania para permanecer na Itália ou para morar em Portugal, por exemplo, têm preferido ir para a Irlanda por conta das ofertas de trabalho", diz Perugini.

"Há ainda os que se mudam para Dublin ou outras cidades no país com o visto de estudante, gostam muito e decidem permanecer. Ao buscarem opções, acabam descobrindo que têm direito à cidadania europeia e iniciam o processo como meio de se manterem legais".

O baiano Felipe Távora desembarcou em solo irlandês em janeiro de 2020 ao lado do irmão para trabalhar e estudar inglês.

Jovens e sem filhos

Edu Giansante, de 37 anos, mora em Dublin desde 2008. Quando chegou no país, a comunidade brasileira era muito menor e havia poucas informações sobre o processo migratório. Por isso, o paulista formado em Design Digital decidiu criar um site de notícias e informações sobre a Irlanda em português.

Por meio do E-Dublin, Giansante aconselha hoje muitos brasileiros que desejam seguir seus passos na Europa.

"A maioria das pessoas vem com a ideia de estudar, mas acaba gostando muito do país, encontrando bons trabalhos e fica por aqui", diz.

Além de dar dicas de migração, o E-Dublin também realiza anualmente uma pesquisa para traçar um perfil do brasileiro que vive na Irlanda. Em 2021, foram entrevistadas 2.881 pessoas em um período de dois meses por meio de uma plataforma online para coletar dados sobre status migratório, emprego e vida pessoal.

Segundo Giansante, a consulta mostrou que a comunidade é formada principalmente por pessoas entre 26 e 35 anos, solteiras ou casadas, mas sem filhos. Alguns têm ensino superior e buscam cargos em algumas das gigantes de tecnologia que elegeram Dublin para instalar sua sede europeia, tal como Google, Facebook, Linkedin e Microsoft.

O próprio paulistano encontrou emprego em uma dessas companhias e trabalha como gerente na empresa israelense Wix. "Assim como muitos outros, cheguei aqui em 2008 como estudante, mas logo consegui trabalho e um visto mais permanente. Hoje, sou cidadão europeu", conta.

Trabalho rápido

 

Para além dos bons salários, a facilidade de arrumar emprego também deslumbra muitos brasileiros que desejam tentar a vida no exterior.

Segundo a pesquisa realizada em 2021 pelo E-Dublin, 39% dos entrevistados conseguiram um trabalho após um mês ou menos de sua chegada na Irlanda. Outros 37% estavam empregados em até três meses.

A paulista Kelly Ferreira, de 36 anos, desembarcou no país no início de dezembro de 2021 e, em menos de dois meses, já estava empregada como auxiliar de cozinha em uma empresa que presta serviços de alimentação para grandes companhias na cidade de Limerick, no interior do país.

Seu marido Diego Ferreira, de 37 anos, foi ainda mais rápido e começou a trabalhar 20 dias depois da chegada. Músico no Brasil, ele agora é auxiliar de cozinha em um restaurante.

"Fomos desligados da empresa em que trabalhávamos na pandemia e decidimos aproveitar a oportunidade para realizar o sonho antigo que tínhamos de morar fora", conta Kelly, que é formada em Administração e, no Brasil, atuava como técnica de Segurança do Trabalho.

O casal natural de Limeira, no interior de São Paulo, fez como muitos outros brasileiros e se mudou para a Irlanda com visto de estudante. Eles dividem sua rotina entre as aulas de inglês, o trabalho e as viagens de final de semana.

"Escolhemos a Irlanda também pela possibilidade de viajar pela Europa. Já vimos voo para Manchester por 7 euros [R$ 37] - ganhamos mais que isso em uma hora de trabalho

Brasil fora do Brasil

A comunidade brasileira cresceu tanto que o que não faltam são restaurantes, mercados e lojas que vendem produtos típicos. Segundo Leite, esse nicho tem se tornando tão interessante para alguns comerciantes que os brasileiros têm sido procurados para trabalhar em lojas e restaurantes apenas por falarem português.

"Os brasileiros são muito bem-vistos por aqui, porque são considerados responsáveis e qualificáveis. E falar português tem sido visto como uma vantagem também", diz o diplomata.

E ter com quem conversar na língua nativa ou ter um prato típico à disposição ajuda a reduzir a distância de casa.

"Se estou com vontade de comer paçoca, acho paçoca. Se quero pão de queijo, é só pedir no delivery. Tem até lugar que vende erva para chimarrão", celebra Felipe Távora.

De acordo com a Embaixada brasileira, a cidade com maior número de brasileiros é a capital Dublin. Mas a comunidade brasileira também é grande em Cork, Limerick, Galway, Bray e outras cidades.

"A presença grande de imigrantes brasileiros por aqui nos ajudar a sentir em casa. É bom conversar na língua nativa, conversar com os recém-chegados sobre as novidades", diz Antônio Cunha.

O fluxo intenso de imigrantes, porém, agravou a crise imobiliária em todo o país, apontam os especialistas em migração consultados pela BBC News Brasil.

A dificuldade em encontrar uma residência para alugar na Irlanda é enorme. Quem chega à ilha por vezes demora meses para se estabelecer de forma confortável e, mesmo entre os irlandeses, conseguir acomodação é um problema.

E quem consegue alugar tem que arcar com um valor mensal alto. Entre brasileiros e outros estrangeiros, a locação em conjunto é a solução mais viável, mas mesmo assim não é fácil conseguir vagas, e intercambistas chegam a dividir quarto com seis pessoas ou mais.

O problema não é novo. Já na década passada, a Irlanda tinha uma bolha imobiliária erguida com base no endividamento, estimulada por empréstimos irresponsáveis e incentivos fiscais.

Quando a bolha estourou, em 2008, o preço dos imóveis despencou, os endividados declararam moratória, e a atividade da construção civil foi interrompida. O número de donos da casa própria caiu intensamente e muitos imóveis foram adquiridos por companhias privadas e estrangeiras.

O preço dos imóveis se recuperou após a recessão, mas o número de proprietários não, em parte porque os altos aluguéis tornam difícil poupar para pagar a entrada de uma compra.